Se cada estilo musical pudesse ser derramado sobre uma tela hoje, que cores eles teriam?
Kandinsky pintava o som
No princípio, antes da forma, havia a oscilação. O universo não fala em palavras; ele fala em ondas. Música e cor, embora pareçam habitar reinos distintos dos nossos sentidos, são, em essência, o mesmo fenômeno vestido com roupas diferentes: são vibrações traduzidas em emoção. A ciência nos diz que o som é o ar em movimento (Hertz) e a luz é a eletricidade viajando no vácuo (Terahertz), mas é na arte que essa matemática fria ganha alma.



Se Newton buscou associar as sete cores às sete notas, foi Wassily Kandinsky quem transformou essa teoria em experiência mística. Para o maestro russo da abstração, a tela não era uma superfície, mas um palco acústico. Ele descrevia sua "necessidade intrínseca" de pintar como a urgência de capturar o invisível.
Kandinsky imortalizou a relação entre o ouvido e o olho com uma precisão poética devastadora: "A cor é o teclado, os olhos são os martelos, a alma é o piano de muitas cordas. O artista é a mão que toca, pressionando uma tecla ou outra, para provocar vibrações na alma." Suas obras, como a Composição VII e VIII, não são arranjos aleatórios; são sinfonias visuais. As formas ondulantes e o contraste vibrante dançam em um caos organizado, como se colidissem ao ritmo de uma música que só o artista conseguia ouvir. Kandinsky pintava o som.
Mas ele não estava sozinho nesse concerto. A história da arte é pontuada por visionários que usaram o pincel como instrumento. Paul Klee, influenciado pela polifonia, construiu estruturas visuais que ecoavam o ritmo do Jazz, enquanto o espanhol Joan Miró, guiado pelas melodias tradicionais, traduziu a música em formas orgânicas e energia cinética.
E o que dizer de Jackson Pollock? Sua técnica de dripping (gotejamento) não era apenas tinta caindo sobre a tela; era a materialização física do improviso do Bebop e do Jazz. Pollock não pintava a forma, pintava o movimento e a energia da nota musical explodindo no espaço.


