Danielle Sandi vive em Brasília, é educadora de formação, estuda economia da arte e integra a World Academy of Art and Science. A tese central desse campo cabe numa frase: o valor de uma coisa raramente está onde parece estar. A mesma frase descreve a pintura dela.
Quem olha uma tela dela procura a flor. O que sustenta a tela é o campo.
O que se chamaria de fundo, na pintura de Danielle, tem tanta matéria quanto a figura. Ramagens, folhas e gavinhas são modeladas em massa com a mesma atenção dada à flor, e o que organiza a obra não é o que está representado — é o quanto cada coisa se levanta do plano. A flor é apenas o ponto mais alto de uma superfície inteiramente construída. A artista escreveu, sobre o próprio trabalho, que a imagem figurativa lhe serve como um detalhe da expressão abstrata de fundo. É a descrição mais exata que existe dessa pintura, e foi ela quem a fez.
Pintar é, quase sempre, um trabalho de apagamento: cada camada cobre a anterior, e a superfície lisa é uma superfície que esqueceu. Ela trabalha no sentido contrário. A camada de baixo segue aparecendo, irrompe em faixas onde a de cima cedeu, atravessa o campo como um turquesa que não aceitou ser coberto. A tela não guarda o resultado. Guarda o percurso — e ela volta a esse campo do início ao fim de cada obra, de modo que a matéria ocupa o processo inteiro enquanto a figura ocupa apenas um intervalo.
Daí decorre a exigência mais incômoda desse trabalho. A diferença de altura entre uma camada e a seguinte decide a tela inteira, e altura não atravessa arquivo. Essas obras não entregam nada à distância, nem de relance: só existem inteiras para quem estiver a um metro delas, num dia em que a luz entre de lado.
E aqui a tese se fecha sobre a própria obra. O que se transporta dessas telas é a parte menos importante delas; o que importa fica preso à superfície, e só se entrega a quem se faz presente diante dela.
O valor, como ela sabe por ofício, nunca estava onde parecia estar.