Presença da Cor

Lia Berbert entre o físico e o digital

Antes de ser suporte, a obra de Lia Berbert é um vocabulário: uma folha recortada em cor plana, uma haste que atravessa o campo, um fundo que não imita o mundo, mas o reorganiza em ritmo. Esse vocabulário existe antes da tela, do muro ou do digital — e por isso se move com tamanha naturalidade entre a arte que se pendura, a que não se desprega e a que se projeta e circula. Não são trabalhos distintos: é uma só língua, falada em muitos lugares.

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O que muda de um suporte para outro não é o assunto, é a relação com o espaço e com o tempo. A tela concentra: guarda o gesto num retângulo que se pode possuir e revisitar. O muro dispersa: espalha o mesmo gesto por uma superfície que pertence ao lugar, não a quem passa. O digital expande: desdobra esse vocabulário, faz com que circule e se multiplique, livre de um único lugar. São modos de uma mesma língua — e Lia não hierarquiza nenhum, porque nenhum a define sozinho.

Sua linguagem inscreve-se numa tradição que o modernismo empurrou para a margem e que hoje se relê como potência. O vegetal recortado, a cor chapada, o arabesco: há aí um parentesco com o Matisse dos papéis recortados e com uma tradição ornamental que a “grande arte” quis exilar como apenas decorativa. Lia reivindica esse território sem culpa. Em suas mãos, o ornamento volta a ser o que era antes de virar acusação — uma forma de pensar o espaço e dar-lhe ritmo.

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O olhar vem do design, e isso importa. Nascida e radicada no Rio, formada em Belas Artes pela UFRJ, Lia foi diretora de arte antes de se voltar para as artes visuais — e esse percurso permanece no modo como pensa composição, e na naturalidade com que hoje transita entre pintura, muralismo e arte digital. Anos dirigindo imagens ensinaram-lhe que nenhuma superfície é neutra: toda ela tem tensões, pontos de fuga. Numa tela, isso vira composição; num muro, diálogo com a arquitetura; no digital, um sistema que se reconfigura. A pergunta é sempre a mesma, o que este suporte pede, e a resposta nunca é transportável.

O que unifica os registros é o botânico como método, não como tema. Lia não pinta plantas; empresta da natureza o gesto de crescer — o modo como uma haste procura a luz — e o transplanta para dentro do desenho. Suas composições têm a lógica de um organismo: expandem-se, se ramificam, encontram equilíbrio sem simetria. É uma natureza que não descreve a de fora, e sim inventa a sua própria.

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E, de quando em quando, no meio da tinta, surge uma palavra manuscrita. A procurar… Vou por aí. Frases breves, quase ocultas entre as folhas, escritas para ninguém em particular. São o ponto em que o sistema se abre e deixa entrar quem o fez — o instante em que a superfície, tão controlada, confessa que atrás dela existe uma mão, uma voz, alguém que também procura. Não legendam a imagem; respiram dentro dela.

Talvez seja essa a coerência mais difícil: manter uma voz reconhecível através de suportes de exigências opostas — a permanência do quadro e a impermanência do muro, o que se leva e o que fica. O quadro guarda um instante para que se volte a ele; o mural vive no presente contínuo de quem o atravessa. Mas, num e noutro, a obra só acontece quando alguém está diante dela: o jardim que Lia inventa não existe em lugar nenhum e, no entanto, passa a existir exatamente ali — no espaço, e no presente, de quem, por um instante, para de passar.

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