Em Tom Maior

Waldir Argolo — O Fauvista Brasileiro

A cor, em Waldir Argolo, não descreve: acontece. Não empresta ao cavalo o cinza provável nem devolve ao rosto a cor da pele — recusa servir ao real e passa a existir por conta própria. O vermelho é fogo sem pedir licença; cada tom chega inteiro, presente, antes de qualquer explicação. Diante da tela, não se reconhece um mundo — comparece-se a ele.

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Talvez porque, antes de pintar, Waldir tenha aprendido a tocar. Violonista de formação, ele traz à pintura a lógica de uma arte que só existe no instante em que soa. Suas cores obedecem a essa gramática — notas, acordes, dissonâncias que procuram uma harmonia maior. A mesma mão que dedilha as cordas conduz o pincel, e o gesto é o mesmo: fazer vibrar o agora até que se torne som, ou pigmento, ou presença.

Sua matéria nasce em Sergipe. Da luz do Nordeste, que não conhece meia-medida, ele extrai uma “Sergipanidade Selvagem” — arquétipos que vêm de mais fundo que a memória pessoal. Um século depois de Matisse e seus fauves libertarem a cor da obrigação de imitar, essa raiz encontrou no trópico o seu modo de ser fera: não a que devora, mas a que se recusa a ser domesticada.

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Seus personagens habitam o limiar entre o sonho e a vigília — cavalos que galopam sem chão, rostos de olhos fechados, os padres e as beatas que a devoção do sertão guarda como santos. Quase sempre surgem cercados por uma moldura viva que os envolve como auréola e os apresenta. A cor não descreve esses corpos: consagra-os — e a pele vira mapa de emoções, feita de verdes, laranjas e violetas que dizem da alma o que o realismo não alcança.

Existe aí uma escolha, quase uma ética: recusar o cinza do costume e afirmar uma realidade saturada de vida. Pintar em tom maior é um modo de resistir — devolver a cada figura, humilde ou sagrada, o direito de brilhar.

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Essa afirmação atravessou fronteiras: da Galeria Álvaro Santos, em Sergipe, às premiações no Rio e a publicações fora do país. A cor de Waldir provou que o mais local pode ser o mais universal — o que fala de Aracaju fala, no mesmo tom, a quem nunca lá esteve.

E quando o espectador se afasta, algo continua soando. Não a lembrança de uma imagem, mas a vibração de um instante que se recusa a passar — como a última nota de uma corda, que já não se vê e ainda se ouve.

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