Karine Abbati
Nenhuma delas está servindo o Chá
Existe uma idade em que a mulher começa a desaparecer das imagens. Não da vida. Das imagens.
Karine parte do ponto em que esse enquadramento falha.
Nascida em Florianópolis, finalizando Artes Visuais na UDESC, ela atravessa pintura, performance, fotoperformance, colagem e instalação. Na pintura encontrou o território para investigar corpo, memória, gênero e envelhecimento — e há algo notável na escolha: uma artista jovem que decidiu olhar para a velhice feminina, não como destino distante, mas como ausência agora.
Suas personagens não correspondem ao que se espera delas. Não há neto, não há filho, não há ninguém para cuidar. Uma camiseta anuncia I hate man drinking.
Uma aliança entre espécies
O animal não é companhia decorativa: tem o mesmo peso da figura humana, e as fronteiras entre o doméstico e o rural se dissolvem sem que ninguém comente.
Vacas e galinhas carregam a associação histórica entre corpo feminino e reprodução — a fêmea medida pelo que gera e sustenta. Em O descanso das mães, elas ocupam os sofás de uma sala azul enquanto um homem de robe passa o aspirador entre elas. Numa ponta, uma senhora de cabelo ruivo e taça na mão apoia a cabeça e olha para fora do quadro. Não é a anfitriã da cena. É mais uma que veio descansar.
Em Café da tarde com as peruas, Karine a leva ao pé da letra e enche a mesa: aves de cauda aberta, xícara de chá, papel de parede florido — e no meio delas uma senhora de óculos rosa, terninho azul e lenço laranja. O plural do título não separa a mulher das aves. Coloca-a entre elas, e ninguém à mesa pede desculpa pelo próprio excesso.
A tinta
O que impede isso de virar charada é a pintura. Karine não economiza em nada: cada penugem do peito das aves, o vermelho da cabeça e do pescoço, a louça florida pendurada na parede, a pilha de panquecas. Tudo em foco, tudo com o mesmo peso, nenhuma passagem borrada para poupar trabalho ou dirigir o olho.
E os rostos são o melhor do conjunto. Karine constrói pele envelhecida com uma atenção que a pintura raramente dedica a esse assunto: o dorso da mão, o tendão sob o dedo, a papada, a translucidez sobre o osso. É aí que essas mulheres deixam de ilustrar uma ideia e passam a existir.
O registro nunca é cômico. Essas senhoras são pintadas com a seriedade que a pintura reservou historicamente a quem tinha poder. A ironia está no vocabulário, não no pincel.
Karine trabalha para empoderar essas mulheres, e o faz de um jeito que dispensa alegoria. Não há punho erguido, não há vitória a comemorar — porque na lógica dessas telas não houve batalha. Elas simplesmente já estão vivendo como deveriam ter vivido o tempo todo. A mulher de O descanso das mães apoia a cabeça e olha para fora do quadro com uma expressão sem euforia: o descanso já é dela. O que ainda não chegou está do lado de fora da imagem. Dentro dela, chegou.
Ainda aqui
Há uma diferença enorme entre envelhecer e desaparecer.
Representar um corpo envelhecido sem reduzi-lo à fragilidade ou à perda é devolver-lhe o direito de continuar imprevisível. Karine não idealiza a velhice, e suas mulheres não pedem a juventude de volta. Continuam desejando, escolhendo, exagerando, descansando, contrariando o que se supunha delas.
O que ela oferece não é homenagem nem compensação. É a cena inteira: a mesa posta, a cadeira boa, a companhia de escolha própria.
Talvez seja esse o presente que menos se costuma dar. Não atenção, não cuidado, não gratidão. Espaço no centro do quadro.
Karine o entrega sem cerimônia.
Instagram: @karine.abbati
