O Negativo do Mito

Aroldo Junior

O cinema, em sua gênese mais pura, nada mais é do que o controle absoluto da escuridão pela luz. Antes das cores saturadas das telas digitais, a sétima arte se impôs ao mundo através da película em preto e branco, onde a profundidade de um personagem era medida pela força de suas sombras e pelo brilho de seus contrastes. É exatamente nessa frequência que opera a obra de Aroldo Junior. Ao trazer Marilyn Monroe e Elvis Presley para esta edição especial, o artista não realiza meros retratos: ele projeta sobre a tela uma montagem silenciosa de pura dramaticidade monocromática.

Essa assinatura visual de Aroldo é fruto de uma vida inteira dedicada à busca da ausência de cor. Desde os 15 anos, quando iniciou seus experimentos com carvão, o artista compreendeu que a sombra não serve para esconder a forma, mas para esculpi-la. Sua posterior bagagem no design gráfico trouxe o rigor conceitual e a precisão necessárias para traduzir o caos do mundo em blocos puros de luz e escuridão. Em sua tela dedicada a Marilyn Monroe, essa herança se manifesta como um plano-sequência pictórico. O artista divide a tela em três tempos dramáticos: a gargalhada expansiva, a cena clássica do vestido ao vento e o close-up intimista. O alto contraste radical de sua acrílica elimina os ruídos para deixar apenas o essencial: a expressão dramática de uma mulher que se tornou a maior projeção do século XX.

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Ao lado dela, o retrato de Elvis Presley reafirma essa maestria. O “Rei do Rock” surge não sob os holofotes artificiais de Las Vegas, mas na quietude de um arranjo dinâmico de closes e poses clássicas de performance, onde o preto profundo dita o ritmo e o branco dita a batida. Aroldo Junior atua como um diretor de fotografia que recusa a maquiagem para buscar a verdade biográfica por trás do olhar.

Sua Marilyn parece menos uma pintura e mais um fotograma.
Não vemos apenas a atriz.
Vemos a luz que a transformou em mito.

A mesma síntese aparece em Elvis Presley, o personagem desta edição. Mais uma vez, Aroldo não tenta reproduzir um rosto famoso. Ele procura capturar aquilo que sobrevive quando toda a biografia desaparece: uma expressão, um silêncio, um instante capaz de permanecer décadas depois da última cena.

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Existe algo profundamente cinematográfico nesse procedimento.
O cinema sempre dependeu da luz para criar emoção.
Aroldo demonstra que a pintura também.

No fim, suas telas lembram uma verdade frequentemente esquecida: antes do Technicolor, antes dos efeitos, antes do espetáculo…
Hollywood já era inesquecível.
Porque bastavam a luz, a sombra e um rosto.

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