O Cinema Tridimensional de

Mylene Costa

Se o cinema opera projetando silhuetas de luz sobre superfícies bidimensionais — imagens que desaparecem assim que o projetor se apaga —, a escultura de Mylene Costa faz o caminho inverso. Suas obras não dependem da projeção para simular a vida; elas instituem uma presença física, densa e silenciosa que reorganiza todo o espaço ao redor. O vazio, em sua pesquisa, nunca é o que sobra, mas o que a forma precisou ceder para existir.

Essa assinatura conceitual é fruto de uma trajetória construída entre duas geografias marcantes: a memória primordial da terra em Cuiabá e o rigor metropolitano de seu trânsito internacional pelos Estados Unidos e Europa. É dessa dupla matriz — o ancestral e o contemporâneo — que Mylene retira a precisão para tensionar materiais. Se nas edições anteriores a artista desafiou a rigidez industrial da resina automotiva na aclamada série Nebra, nesta edição dedicada à sétima arte sua identidade ganha uma nova e luminosa virada de roteiro.

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Em sua mais recente produção, a série ELAS, Mylene abandona a cartografia cromática industrial para investigar a matéria primordial do pó de mármore. O branco absoluto dessas novas figuras atua como uma tela cinematográfica que capta e retém a luz do ambiente, transformando a fragilidade da forma em uma afirmação escultórica irrevogável.

Na obra Greta (2026), a forma se revela por meio de um corte seco, guiado pela contenção. A escultura abdica do excesso para ocupar o espaço estritamente através de uma quietude luminosa. Há um eco do cinema clássico silencioso nesse arranjo: assim como um plano-detalhe estático consegue expressar a densidade de uma personagem sem precisar de diálogo, a matéria de Greta equilibra delicadeza e permanência, afirmando-se como pura potência visual.

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Ao lado dela, Guilhermina (2026) expande essa investigação sob a ótica da sensação. Inspirada na energia radiante de uma infância real, a peça recusa os limites do retrato convencional para capturar o intangível: a luz e o afeto que transformam a atmosfera de um lugar. Em Guilhermina, a infância deixa de ser um tema biográfico e passa a operar como força poética viva. A escultura passa a habitar o ambiente onde é acolhida, operando como uma fresta de luz que resiste à escuridão da sala de cinema.

Mylene Costa reitera nesta série a maestria de quem não busca a anatomia perfeita, mas o mistério que sobrevive a ela. Se os filmes nos capturam pelo movimento do tempo, as esculturas de pó de mármore da série ELAS nos retêm pelo repouso absoluto. Diante de seu trabalho, o plano-sequência da realidade estaciona, e o espectador compreende que a luz mais bonita não é aquela que atravessa a película, mas a que decide morar dentro da pedra.

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