A Rua que guarda Constelações

Simone Momente

Toda cidade que Simone Momente já retratou tem uma coisa em comum: nenhuma delas aceita ser apenas endereço. O Copan vira memória de concreto, a Torre Eiffel vira estrutura de afeto, o Teatro Amazonas vira guardião de floresta, o Jardim Majorelle vira pergunta pintada de azul. A artista nunca documenta um lugar — ela negocia com ele, camada por camada de papel recortado, até que a arquitetura pare de ser fachada e comece a respirar como personagem. Era só questão de tempo até que essa negociação chegasse a Hollywood Boulevard.

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A Calçada da Fama é, à primeira vista, um desafio diferente de tudo que Simone já enfrentou. Não é um único edifício com silhueta reconhecível — é uma rua inteira, um chão coberto de nomes, uma extensão horizontal que se recusa a ter um centro óbvio. Mas a artista já conhece esse território de perto: visitou a calçada pessoalmente, caminhou sobre as mesmas estrelas de terrazzo que milhões de turistas atravessam todos os anos sem erguer os olhos. É dessa experiência direta — o corpo movendo-se sobre o próprio símbolo — que a obra parece nascer.

Na composição, o Grauman’s Chinese Theatre ocupa o centro, com sua cobertura em formato de pagode e os dragões esculpidos guardando a entrada — mas é o entorno que carrega a assinatura mais reconhecível de Simone. Ondas de papel em vermelho, cinza e dourado emolduram o edifício como se o quisessem engolir, a mesma lógica de sobreposição que, em obras anteriores, ela usou para representar rio, fumaça, memória em movimento. Aqui, essas ondas fazem outra coisa: parecem representar o próprio fluxo humano que atravessa aquele calçamento há mais de sessenta anos — todo mundo que já passou por ali carregando um sonho, uma câmera, um mapa turístico amassado no bolso.

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O céu azul profundo ao fundo, pontilhado de estrelas discretas, estabelece um diálogo silencioso com o chão: o mesmo padrão de pontos luminosos que, na Calçada da Fama, foi rebaixado do céu para o pavimento, reaparece na obra de Simone como lembrança de que a ideia sempre foi essa — trazer o que deveria estar distante para debaixo dos pés de qualquer pessoa. A técnica de colagem, que a artista já usou para falar de arquitetura europeia, floresta amazônica e jardim marroquino, encontra aqui talvez seu tema mais irônico: um monumento dedicado à fama, construído sobre a premissa de que a única forma de imortalizar alguém é deixando seu nome ser pisado.

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Fica a pergunta que talvez atravesse toda a pesquisa de Simone, aplicada agora a esse território novo: o que sobrevive quando um lugar já foi fotografado, visitado e pisado por milhões de pessoas que nunca pararam para realmente olhar? Simone responde do único jeito que conhece — não com uma câmera, mas com uma tesoura e a paciência de quem ainda acredita que um lugar merece ser lido antes de ser cruzado.

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