Dimitrih Correa
Objetos com Roteiro Próprio
Existe uma figura no folclore brasileiro que nunca é a mesma coisa duas vezes. Aparece de um jeito, desaparece de outro, some em redemoinho e reaparece do nada, sempre pronta para uma travessura. O Saci Pererê não tem uma perna — tem inúmeras formas. É, à sua maneira, o personagem mais cinematográfico da cultura popular brasileira: um corpo que se recusa a ficar fixo, que se transforma diante de quem olha.
Foi esse personagem que inspirou Dimitrih Correa a desenhar uma cadeira que também não é sempre a mesma coisa. Na Cadeira Perê, o encosto é removível — basta retirar uma peça e a cadeira se transforma em banco, mais fácil de carregar, mais discreta, outra função para o mesmo corpo de madeira. É um mobiliário com truque próprio, assim como o Saci tem o seu. E é curioso pensar que, do outro lado do universo do design, existe um outro tipo de cadeira que também carrega essa dupla natureza: a cadeira do diretor, objeto de descanso que a qualquer momento pode se tornar o comando de uma cena inteira, só com um gesto de quem está sentado nela.
Dimitrih nasceu em 1993 no Rio de Janeiro, e sua relação com a madeira começou em casa: o pai construía os próprios móveis com material recolhido nos arredores de Santa Teresa, e essa educação informal se tornaria, décadas depois, o eixo criativo de toda a sua produção. Formado em Design Industrial pela UFRJ, com especialização no Dublin Institute of Technology, ele assumiu o processo do início ao fim — concepção, desenho, execução — sempre priorizando madeira reaproveitada como matéria-prima e como posição autoral.
A Cadeira Perê pertence à coleção Folclore, tributo às lendas populares brasileiras. Ao lado dela na mesma série está a Mesa Gia, inspirada na lenda amazônica da Vitória-Régia, e a Luminária Tata, batizada com o nome do Boitatá, a serpente de fogo que protege as florestas dos caçadores — cada peça emprestando de uma figura mítica não apenas um nome, mas uma lógica de construção.
Já na coleção mais recente, In’ei Raisan, o registro muda de tom sem abandonar a mesma ambição narrativa. Inspirada no ensaio clássico de Jun’ichirō Tanizaki sobre a estética japonesa da sombra, a poltrona Naoshima — batizada em referência à ilha japonesa conhecida por sua arquitetura contemplativa — combina madeira maciça reaproveitada, aço inoxidável e couro natural em uma peça que não pede protagonismo: convida repouso, silêncio, permanência. É o oposto exato da travessura do Saci, mas fruto do mesmo impulso de transformar madeira descartada em objeto que significa algo além de si mesmo.
O percurso de Dimitrih já passou por Milão, Paris, Nova York, Bruxelas, Antuérpia e Buenos Aires, além das principais feiras de design autoral do Brasil. Venceu o Prêmio Salão Design com o Banco Fragata, peça que leva cordas tensionadas na estrutura, e acumulou menções e finalísticas no Museu da Casa Brasileira e no Prêmio Tok & Stok.
Se a cadeira do diretor manda com um nome estampado na lona, a Cadeira Perê manda de outro jeito — sem avisar, sem crachá, só trocando de forma quando menos se espera. Entre o Rio de Janeiro e o Japão de Tanizaki, ele parece perseguir a mesma pergunta há anos: quanto de história cabe dentro de um pedaço de madeira? A resposta, ao que parece, ele ainda está talhando.
Instagram: @dimitrih.correa
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