Paolo Quaglio

Entre Gênova, o Sagrado e as Cores do Brasil

Há diretores que filmam a fé sem precisar mostrar Deus.

Andrei Tarkovsky fazia isso com a água que escorria lentamente por uma parede antiga. Federico Fellini, com procissões que pareciam sonhos acordados. Pier Paolo Pasolini, com rostos populares que carregavam uma dignidade quase bíblica. Nenhum deles estava interessado apenas na religião. Procuravam algo mais antigo: a necessidade humana de transformar matéria em presença.

Paolo Quaglio percorreu esse caminho muito antes de saber que ele também existia no cinema.

Ainda criança, desenhava flores nas calçadas de Gênova ao lado da mãe, artista. Depois vieram os corredores da Academia de Belas Artes, onde estudou sempre como bolsista. Sem recursos para grandes modelos, encontrou nas igrejas italianas a maior das escolas. Durante anos copiou santos, Madonas, anjos e apóstolos, aprendendo que a pintura nunca serviu apenas para representar o mundo. Ela existia para torná-lo visível de outra maneira.

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Quando chegou ao Brasil, aos quatorze anos, a realidade era outra. Trabalhou como office-boy durante o dia e estudou desenho e pintura à noite. A arte deixou de ser apenas vocação para tornar-se também sobrevivência. Vieram as aulas, as encomendas, os murais, a consultoria e uma produção intensa que atravessou impressionismo, figuração, cubismo, florais, cenas populares e, mais tarde, a espiritualidade afro-brasileira.

À primeira vista, parecem caminhos distintos.
Não são.

Existe um fio invisível costurando toda essa obra.
As flores não são apenas flores. São oferendas.
Os mosaicos não são apenas ornamentos. São luz transformada em matéria.
Os santos não pertencem apenas às igrejas, assim como os orixás não pertencem apenas aos terreiros. Todos habitam o mesmo território simbólico: aquele onde a imagem deixa de ilustrar uma crença para se tornar uma experiência espiritual.

O cinema conhece profundamente essa transformação.

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Em Andrei Rublev, Tarkovsky acompanha um pintor de ícones russo tentando compreender qual é, afinal, a função da arte num mundo atravessado pela violência. O filme nunca oferece uma resposta definitiva. Apenas sugere que pintar talvez seja um ato de esperança.

Paolo parece responder à mesma pergunta.

Suas figuras carregam ouro, espelhos, pedras, relevos e cores exuberantes, mas nenhum desses elementos existe para exibir riqueza. Funcionam como faziam nos antigos mosaicos bizantinos: refletem a luz para lembrar que existe algo maior do que aquilo que os olhos conseguem alcançar.
Mesmo quando fragmenta um rosto pelo cubismo, não destrói a figura. Apenas mostra que toda identidade é feita de muitas partes.

Mesmo quando pinta jardins explosivos de cor, não está interessado apenas na natureza. Há sempre a sensação de que aquelas flores pertencem a um lugar onde memória, fé e beleza respiram juntas.

Talvez seja por isso que sua pintura pareça atravessar tantas linguagens sem nunca perder a própria voz.
Porque Paolo não escolhe um estilo.
Escolhe uma devoção.

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No cinema, a luz atravessa a película antes de tocar a tela.
Na pintura de Paolo Quaglio, ela atravessa séculos.

Dos ícones das igrejas de Gênova às cores do Brasil, dos santos aos orixás, das flores aos mosaicos, cada obra parece repetir silenciosamente a mesma convicção: a arte nunca existiu apenas para mostrar o mundo.

Ela existe para revelar aquilo que o mundo sozinho não consegue dizer.

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