O Rosto antes do Filme

Kei Meguro

 

Há imagens que não parecem ter sido desenhadas, mas lembradas. Diante da obra de Kei Meguro, a impressão não é a de observar um retrato, e sim de testemunhar o instante em que um pensamento encontra forma antes mesmo de se transformar em palavra.

Nascida no Japão e radicada entre Tóquio e Nova York, a artista construiu uma linguagem em que o domínio absoluto do grafite nunca se torna espetáculo. Sua precisão existe para desaparecer. Quando a técnica deixa de chamar atenção, abre espaço para algo muito mais raro: a sensação de que a realidade pode, silenciosamente, ampliar seus próprios limites.

artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea

É nesse ponto que sua obra encontra o cinema. Não o cinema da narrativa, mas o da suspensão. Há filmes que permanecem longos segundos sobre um rosto até que ele deixe de representar alguém e passe a revelar um estado interior. Os desenhos de Kei produzem o mesmo efeito. O tempo desacelera, e a imagem parece respirar diante de nós.

artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea

Flores, peixes, galhos e aves jamais aparecem como ornamentos. Também não funcionam como símbolos fáceis. Eles ocupam o espaço invisível da memória, do afeto e da identidade, como se aquilo que normalmente habita o pensamento decidisse, por um instante, tornar-se matéria. Em suas figuras, a natureza não cerca o ser humano; ela continua aquilo que ele é.

Talvez seja por isso que seus desenhos provoquem uma estranha familiaridade. Tudo parece rigorosamente real, mas nada obedece inteiramente às leis do mundo. O impossível não rompe a realidade; instala-se nela com absoluta delicadeza, até que deixamos de estranhá-lo.

artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea

Ao desviar o olhar, permanece uma sensação difícil de explicar. Como depois de certas cenas inesquecíveis do cinema, não lembramos apenas do que vimos. Levamos conosco a impressão de que existe uma parte da realidade que só se revela quando a imaginação aprende a olhar com a precisão da beleza.

artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea
artnow-report-kei-meguro-artista-brasileira-arte-contemporanea