Antes do Primeiro Batimento
Ana Cris Ben
Todo filme de amor acredita estar contando a história de duas pessoas. No fim, descobre-se que sempre esteve filmando outra coisa: um coração insistindo em continuar batendo. É para essa sala escura, invisível aos olhos e decisiva para toda existência, que a pintura de Ana Cris Ben nos conduz.
Sua formação em Farmácia lhe ensinou a anatomia do coração, o rigor de suas válvulas, a precisão dos impulsos elétricos, a delicada arquitetura que sustenta a vida. A pintura, porém, levou essa anatomia para outro território. Em suas telas, o coração deixa de ser apenas um órgão e passa a existir como lugar de memória, de fé, de perda e de permanência.
O cinema conhece bem esse caminho. Em “Asas do Desejo”, um anjo renuncia à eternidade para experimentar aquilo que só um corpo humano permite: sentir frio, sangrar, amar. Não troca o céu pela Terra; troca a perfeição pela vulnerabilidade. Os corações de Ana parecem nascer dessa mesma escolha. Não pertencem ao divino distante, mas ao risco cotidiano de continuar amando apesar da fragilidade.
Em “21 Gramas”, um coração passa de um peito a outro depois de um acidente, e com ele atravessa um amor que pertencia a outra vida. A ideia é quase insuportável — o órgão como bagagem, o afeto como algo que continua batendo num estranho. É esse paradoxo que Ana persegue: o coração que ama não é figura de sentimento, é carne que trabalha cem mil vezes por dia para que o sentimento tenha onde acontecer.
Quando o cinema encontra a morte, muitas vezes responde com a imagem de uma árvore. Em “Fonte da Vida”, a eternidade não surge como vitória sobre o tempo, mas como transformação. O corpo torna-se raiz, seiva, floresta. Nas pinturas de Ana, o mesmo gesto reaparece de forma delicada: veias tornam-se galhos, artérias florescem, o coração deixa de ser encerrado pelo corpo para participar do ciclo maior da vida. Amar talvez nunca tenha sido conservar alguém, mas permitir que sua presença continue crescendo em nós.
O que separa Ana do melodrama é a recusa do desfecho. O cinema de amor precisa do beijo final, da cura, do trem que parte. A pintura dela fica no instante anterior: o coração ainda batendo, ainda sem saber se vai ser correspondido, ainda fazendo o trabalho silencioso de manter alguém vivo enquanto a história não se resolve.
Talvez seja por isso que as telas pareçam fotogramas soltos de um filme que ninguém chegou a montar — cada coração, uma cena que continua depois que a luz da sala se acende. A sessão termina. O órgão, não.
Instagram: @anacristinaben
