O Contra-Plano do Afeto

Alexandre Puga

A pintura urbana costuma ser associada ao ruído e à pressa do concreto. Na obra de Alexandre Puga, o gesto artístico opera na contramão: institui uma pausa. Suas telas e murais funcionam como planos-sequência estáticos que interrompem o fluxo da metrópole, transformando a superfície pictórica em um território onde a memória, o afeto e a travessia entre o Recôncavo Baiano e o Grajaú encontram morada.

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Há uma escolha de enquadramento fundamental que governa sua linguagem: frequentemente, os personagens nos dão as costas, compartilhando conosco o horizonte que contemplam. É o contra-plano da existência. Ao abdicar do rosto imediato, Alexandre nos convida a habitar o olhar do outro. A luz que banha esses corpos — construída em degradês que fundem o vigor dos amarelos solares à melancolia dos azuis crepusculares — confere às cenas uma qualidade cinematográfica de suspensão. O tempo ali não avança; ele se dilata para que a infância e a juventude assumam a dignidade do protagonismo absoluto.

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Essa atmosfera mansa resguarda uma profunda densidade política e simbólica. Quando a imagem devolve o corpo de um menino que carrega, sobre o cabelo crespo, a estrutura minimalista de uma casa de tijolos, a pintura transcende a crônica social e se torna alegoria. A arquitetura não pesa como fardo; eleva-se como coroa, território da memória e materialização do conceito de Sankofa — o princípio ancestral de retornar ao passado para resgatar o que edifica o futuro. Como educador e historiador da arte, Alexandre sabe que pintar é um ato de responsabilidade histórica. Seu trabalho não ilustra a ausência; monumentaliza a permanência.

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Nas texturas que opõem a crueza do fundo grafitado à suavidade translúcida da pele, revela-se um manifesto sutil sobre a ternura. Palavras como paz, inscritas pelas próprias personagens, deixam de ser índices textuais para se tornarem escudos visuais contra a aspereza do mundo ao redor.

Talvez seja por isso que suas telas provoquem uma sensação tão rara. Não nos fazem sentir culpa. Não procuram convencer. Não elevam a voz. Apenas permanecem diante de nós até que percebamos que também estamos olhando para o horizonte.

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E então compreendemos que aquele horizonte nunca esteve dentro da pintura.
Sempre esteve à nossa frente.

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