Aroldo Junior & Pedro Prandini

O Eixo e a Maré

Antes de qualquer leitura, a tela pede que o olhar se perca. O fundo vibra, escorrega, não encontra repouso. Só depois — e quase como alívio — o farol aparece. Fixo. Preciso. E tudo muda de sentido: o que parecia caos revela-se maré, e o que parecia solidão revela-se travessia.
É assim que O Eixo e a Maré se apresenta: não como síntese de duas linguagens, mas como campo de força entre elas. A obra nasce do encontro entre Aroldo Junior e Pedro Prandini — dois artistas com poéticas inteiramente distintas que, ao dividir uma mesma superfície, descobriram que a distinção era justamente o que havia de criar.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
Aroldo Junior construiu seu olhar a partir da mais austera das disciplinas: o preto e o branco. Desde as primeiras experimentações com carvão sobre papel Canson, sua investigação nunca foi sobre cor — foi sobre luz. Sobre o que a luz faz quando encontra a sombra, sobre a arquitetura invisível que sustenta uma imagem antes que qualquer outro elemento apareça.
Esse domínio da gradação, da tensão entre o escuro e o luminoso, atravessou toda a sua trajetória e chegou intacto à acrílica sobre tela — onde Aroldo não representa os motivos que escolhe, mas os interpreta. É a palavra que ele mesmo usa para se definir: o intérprete. Aquele que se coloca entre o motivo e a tela para traduzir o que sente, não o que vê. Seja um falcão-peregrino pintado em tributo à falcoaria de Dubai, seja um Elvis Presley que ignora a voz para buscar o olhar por trás do mito.
Pedro Prandini chegou primeiro — como costuma acontecer com o mar. Seu trabalho é a própria fundação da obra: um fundo construído em derramamento, onde a tinta percorre a superfície guiada pela gravidade, sua coautora mais fiel. As células orgânicas que surgem, as microgeografias que lembram tecido vivo, o azul que oscila entre o profundo e o luminoso — tudo isso é Pedro criando não um cenário, mas um estado.
Aqui, esse estado é de fluxo permanente. A maré de Pedro não encontra repouso porque não foi feita para isso: foi feita para movimentar quem olha, para tornar o olhar itinerante. É sobre essa superfície viva que a tela espera por sua outra metade.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
Quando as duas linguagens se encontram, a composição se resolve com uma clareza quase inevitável: no centro do fluxo, um farol. E ao seu redor, duas embarcações que navegam. O preto e branco de Aroldo não compete com o fundo de Pedro — ancora-o. Dá-lhe direção sem lhe tirar a vida.
Nas palavras do próprio Aroldo: "O farol surge como um ponto de direção dentro desse fluxo — não para controlar, mas para coexistir com ele. Em nenhum momento a ideia foi sobrepor, mas somar. O que existe aqui é um equilíbrio entre o caos e a ordem, entre o que se move e o que permanece."
É uma declaração de intenção que transcende esta obra e toca numa questão fundamental sobre o que significa colaborar: não a imposição de uma linguagem sobre a outra, mas a negociação de um espaço comum onde ambas existam com integridade. O derramamento de Pedro é o agora — o instante da tinta em movimento, do acaso capturado. O farol de Aroldo é a permanência — o que existia antes dos barcos chegarem e existirá depois que partirem. Juntos, formam uma imagem do tempo completo.
"No fim, é uma obra sobre travessia. Não só dos barcos, mas do olhar de quem observa." A frase fecha o círculo. E o olho, que começou perdido na maré, termina sabendo exatamente onde está.
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
artnow-report-arte-de-todas-as-formas-art-artistic-obra-de-arte-a-melhor-revista-de-arte
error: Content is protected !!