O Azul que Elson Escreve
Elson Junior
Antes de ser cor, o azul de Elson Júnior é decisão. Não a decisão de quem escolhe uma paleta — mas a de quem entende que a tinta carrega o que a palavra ainda não nomeou. Nas obras desta edição, ele atravessa trabalhadores, crianças, devotos e homens abatidos com a mesma esferográfica obstinada, e o azul vai se depositando sobre esses corpos como algo que lhes pertence: é o azul do macacão de quem vai ao trabalho antes do sol, da pele de quem foi lido pelo mundo antes de se apresentar, do turbante erguido como arquitetura sagrada. Em nenhum momento o azul decora ou suaviza — ele acusa, sagra, expõe. Muda o que cada figura significa.



Formado em Artes Plásticas pela UFBA e moldado pela efervescência dos movimentos afro artísticos de Salvador, Elson Júnior construiu ao longo dos anos uma linguagem visual que é, antes de tudo, um ato de permanência. A esferográfica — instrumento que não apaga, que não corrige, que exige do artista a convicção de cada gesto — tornou-se sua extensão mais fiel. Com ela, Elson percorre os corpos hachura por hachura, depositando camadas de tinta até que a figura emerja com a densidade de quem sempre esteve ali, esperando ser vista.
Há nesse processo uma ética que espelha a política: cada pessoa retratada recebe o tempo que merece, o tempo que o mundo muitas vezes lhe negou. O resultado são imagens que não se olham de passagem — que pedem parada, que instalam presença, que recusam o apagamento com a única arma que a arte tem: a beleza intransigente.
O azul tem história própria no universo que Elson habita. É a cor de Ogum e de Iemanjá, de Logun Edé — o orixá jovem que divide seu tempo entre as matas e as águas, entre a caça e a pesca, entre dois mundos que não se excluem. É o azul do índigo que tingiu os panos da diáspora africana, que atravessou o Atlântico no corpo dos tecidos e na memória dos que os carregaram.
É o azul de Salvador vista do mar, da Baía de Todos os Santos que não é quieta — que engole e devolve, que guarda e revela. Quando Elson escolhe o azul para esta série, ele não está apenas escolhendo uma cor fria ou uma variação estética: está convocando toda essa camada de sentido. O azul em suas obras é litúrgico e político ao mesmo tempo — é a cor de quem pertence a uma linhagem que o mundo tentou apagar e que, teimosamente, continua aqui, visível, densa, irredutível como tinta sobre papel.
O azul de Elson não ilumina — ele testemunha.


