Justina D’Agostino

Vida e morte entre noite e dia (2026)

Mais uma série que surge sobre lugares e acontecimentos que me permitem reflexões por meio de representações, cujos percursos permeiam labirintos de tempo, espaço e memória em suas complexidades. Aqui, surge a partir de registros fotográficos feitos por mim no Cemitério de La Recoleta e no Mercado de Las Pulgas em Buenos Aires, em dezembro de 2025.

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“Vida, vida

3. […]
Só preciso da imortalidade
Para que meu sangue continue a fluir de era para era.
Eu prontamente trocaria a vida
Por um lugar seguro e quente
Se a agulha veloz da vida
Não me puxasse pelo mundo como uma linha.”

Arseni Tarkovski¹

1 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo.
2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 169.

Primeiro Ato

Num primeiro ato, a série dá ênfase à questão de vida e morte pelo impacto que sofri ao percorrer as ruas do cemitério. As imagens surgem como um filme em branco e preto cuja configuração da forma reluta por representação.

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Aos poucos, me vi novamente entre tempos e espaços, onde a cor se manifesta como representação de vida a céu aberto.

“O tempo constitui uma condição da existência do nosso ‘Eu’. Assemelha-se a uma espécie de meio de cultura que é destruído quando dele não mais se precisa, quando se rompem os elos entre a personalidade individual e as condições da existência. O momento da morte representa também a morte do tempo individual: a vida de um ser humano torna-se inacessível aos sentimentos daqueles que continuam vivos, morre para aqueles que o cercam.”²

2 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo.
2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 64.

Segundo Ato

“A arte simboliza o significado da nossa existência.”³

“A sociedade busca estabilidade, o artista quer o infinito.”⁴

3 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 231.
4 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 231.

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Terceiro Ato

No Mercado de Las Pulgas, me vi diante do acúmulo do objeto que retrata e emoldura razões de ser e gosto que perderam uma vez sua razão de ser para dar espaço, quem sabe, para um novo vir a ser.

“[…] o que me agrada extraordinariamente no cinema são as articulações poéticas, a lógica da poesia.”⁵

Molduras

Em que pese o rasgo visto e recolhido
em mundo incerto pelo nosso olhar
por clemências a inserir em contexto a ser vivido,
lá estão predispostas as molduras a cercar o instante
tão fugaz a nos mirar em foco,
como a ter o poder de salvar feridas por curar.

Esta é a força que lhe outorga o recorte para a obra em sintonias
reverberadas se fazer acontecer em vastidão de campos por arar,
pois o resto é ainda todo corpo em movimento,
pronto apenas a se deixar emoldurar no instante pelo olhar,
que em sintonia e êxtase entre vida e morte, também delas há de abdicar.

Justina D’Agostino, 2016

5 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo.
Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 16.

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“A imagem artística é sempre uma metonímia em que uma coisa é substituída por outra, o menor no lugar do maior. Para referir-se ao que está vivo, o artista lança mão de algo morto; para falar do infinito, mostra o finito. Substituição… não se pode materializar o infinito, mas é possível criar dele uma ilusão: a imagem.”⁶

6 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo.
Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 41.

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“O horrível e o belo estão sempre contidos um no outro. Em todo o seu absurdo, este prodigioso paradoxo alimenta a própria vida, e, na arte, cria aquela unidade ao mesmo tempo harmônica e dramática.”⁷ 

7 – TARKÓVSKI, Andrei. Esculpir o tempo.
Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 41-42.

Justina D’Agostino

Graduada em arquitetura pela FAAUSP em 1977, Justina iniciou sua incursão no mundo da arte em 1983, onde desde então vem construindo uma trajetória repleta de realizações e reconhecimento.

Seu interesse pelas artes plásticas transcende o mero domínio técnico, impulsionado por uma profunda convicção na capacidade da arte de conectar pessoas através de seus desenhos. Para Justina, suas obras são convites para explorar um mundo de narrativas e conexões, onde as linhas traçadas se convertem em pontes entre diferentes perspectivas e experiências.

O estilo artístico de Justina é intrinsecamente ligado à sua visão de mundo, refletindo uma fusão de observação meticulosa e interpretação criativa. Seu processo de pintura é uma espécie de diálogo constante com o entorno, onde pinceladas são reflexões de sua percepção sensível dos elementos que a cercam. Como uma escritora de histórias visuais, ela transforma suas experiências cotidianas em composições vívidas, destacando nuances e detalhes que capturam a essência do momento.

Suas obras, marcadas pela beleza e pela profundidade emocional, são testemunhos da sua busca incessante pela expressão autêntica e pela conexão humana.

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