Todo círculo guarda um centro que não tem tamanho. É um lugar exato — pode-se calculá-lo, marcá-lo, apontá-lo com a ponta seca do compasso — e ainda assim é o único ponto da figura que ninguém ocupa. A partir dele, tudo se organiza: cada distância, cada ângulo, cada repetição. A obra de Elismar Ferreira nasce dessa coordenada impossível — o ponto que sustenta a forma inteira sem jamais aparecer nela.
À primeira vista, vemos precisão. Linhas que se expandem com rigor quase arquitetônico. Círculos que se multiplicam em ritmo exato, como se cada forma conhecesse antecipadamente o lugar que lhe pertence.
Mas a geometria é apenas a superfície.
Formada em Matemática e Construção Civil, Elismar pertence a uma rara linhagem de artistas para quem a razão não é o oposto da sensibilidade, mas o seu instrumento. Em suas mãos, compasso, régua e transferidor deixam de ser ferramentas técnicas para tornar-se instrumentos de escuta. Cada ponto parece responder a uma necessidade antiga: encontrar sentido onde antes existia dispersão.
Talvez por isso suas mandalas provoquem uma sensação tão particular. Elas não conduzem o olhar para fora. Conduzem para dentro.
Existe algo nelas que lembra símbolos recorrentes da experiência humana — círculos sagrados, rosáceas, labirintos e formas que atravessam culturas há séculos. Não como ornamento, mas como passagem. Imagens que parecem guardar mais do que revelam.
Mas é preciso dizer o que existe no centro. Em 2017, Elismar perdeu o único filho. O que se instalou então foi um silêncio — e foi em torno dele que a obra começou a girar. A mandala não preenche essa ausência, porque ausência não se preenche. Ela faz outra coisa: organiza o mundo ao redor de um centro que ninguém pode ocupar, e ensina o olhar a permanecer perto dele sem se desfazer. Ponto a ponto, a artista não apaga o vazio. Dá a ele uma forma que se pode contemplar.
A natureza ocupa papel essencial nesse processo. Não como paisagem, mas como estrutura. Nas pétalas, sementes e ciclos naturais, Elismar reconhece uma matemática invisível que também organiza suas composições. Suas obras parecem nascer exatamente desse encontro entre cálculo e contemplação.
Por isso não pedem um olhar apressado. Quanto mais tempo permanecemos diante delas, menos percebemos a construção e mais sentimos o ritmo. Os pontos deixam de ser pontos. As formas deixam de ser formas. O olhar desacelera.
Enquanto houver um ponto a mais para depositar ao seu redor, a obra ainda não terminou. E talvez seja esse, no fundo, o sentido de continuar: não preencher o centro, mas seguir desenhando ao redor dele.