Rio Scenarium
Um Mergulho na Alma Boêmia e Histórica do Rio de Janeiro
por: Mister George
Mais do que uma casa noturna, o imponente casarão da Rua do Lavradio se consagra como um guardião da cultura brasileira, unindo antiquário, gastronomia e a essência da música ao vivo.
Quem caminha pela Rua do Lavradio, no coração do bairro da Lapa, sente a vibração histórica que emana dos paralelepípedos. Mas é ao cruzar as portas do número 20 que a viagem no tempo se torna, de fato, uma experiência sensorial completa. Estamos falando do Rio Scenarium, um local que transcende a definição de bar ou boate para se firmar como um dos mais importantes pavilhões culturais do Brasil. Considerado pelo jornal britânico The Guardian como um dos 10 melhores bares do mundo, o Rio Scenarium é o cenário onde o passado e o presente dançam juntos, literalmente.
Um Museu onde se pode Tocar (e Dançar)
O que diferencia o Rio Scenarium de qualquer outro hotspot da vida noturna carioca é a sua cenografia. Ocupando um conjunto de casarões do século XIX, o espaço nasceu, originalmente, como um antiquário especializado em locação de objetos para novelas e filmes. Essa gênese moldou sua identidade visual exclusiva.
Ao entrar, o visitante é envolvido por uma coleção poderosa de mais de 10 mil peças. Lustres de cristal imperial pendem do teto, bicicletas antigas, bonecas de porcelana, relógios de parede e móveis de madeira nobre compõem um labirinto visual fascinante. Diferente da frieza dos museus tradicionais, aqui a arte é viva. As pessoas jantam em mesas que poderiam estar em um palacete de 1920 e dançam sob o olhar de santos barrocos e manequins vintage.


O Diretor e o Colecionador - Plínio Fróes
Se Meia-Noite em Paris é uma carta de amor cinematográfica à nostalgia, o Rio Scenarium é a materialização física desse mesmo sentimento. E nesse paralelo, Plínio — o visionário fundador — assume o papel de um diretor de cinema que dispensou as câmeras para filmar na realidade. Existe uma conexão espiritual e criativa inegável entre o cineasta nova-iorquino Woody Allen e o antiquário mineiro radicado no Rio. Ambos compartilham uma obsessão: a crença de que o passado não é um tempo morto, mas um refúgio estético onde a alma humana encontra conforto e inspiração.
Enquanto Allen constrói sua ilusão por meio de roteiros e precisa da tela prateada para suspender a descrença do espectador (como quando Gil Pender entra em um Peugeot Type 184 Landaulet de 1928 para viajar no tempo), Plínio opera com uma "magia" mais tátil. Seu "filme" não tem cortes. Ele utiliza a arquitetura, o mobiliário centenário e a acústica da Lapa como ferramentas de mise-en-scène. Para Fróes, o cenário não é fundo; é protagonista. Ao restaurar os casarões da Rua do Lavradio, ele criou um set de filmagem permanente onde o "ator principal" é o próprio cliente. A genialidade de ambos reside na curadoria: Allen escolhe Cole Porter para trilhar a Paris dos anos 20; Fróes escala os mestres do choro e do samba de gafieira para sonorizar o Rio da Belle Époque.
Plínio reescreveu o roteiro da Lapa com o olhar de um diretor que enxerga beleza onde outros viam ruína, provando que é possível resgatar a dignidade urbana através da estética. No Rio de Janeiro, ele é o homem que espera você à meia-noite — não com um carro mágico, mas com as portas abertas de um casarão onde o passado nunca dorme.
A Trilha Sonora
E se a decoração define o palco, é a música que captura a alma. O Rio Scenarium é um bastião da Música Popular Brasileira (MPB). Dividido em múltiplos andares e salões, o local oferece uma curadoria musical que rejeita o trivial. No palco principal, o samba de raiz e o choro reinam absolutos, executados por alguns dos melhores instrumentistas da cidade. É comum ver turistas estrangeiros, ainda tímidos, tentando acompanhar os passos de cariocas veteranos que dominam o salão com a elegância de quem nasceu no ritmo. Em outros ambientes, o forró pé-de-serra e o pop-rock nacional garantem a diversidade sonora, criando uma democracia rítmica que agrada a todas as idades.
Gastronomia de Boteco
Gastronomia, convivência brasileira e comida de boteco elevada a um padrão internacional. Entre uma música e outra, as mesas ficam repletas de clássicos cariocas: bolinhos de carne, pastéis de camarão e, claro, a indefectível caipirinha, servida aqui com um equilíbrio perfeito entre a acidez do limão e a doçura do açúcar.
Mas o verdadeiro "prato principal" é a atmosfera humana. O Rio Scenarium é um dos poucos lugares no mundo onde as fronteiras sociais e geográficas parecem se dissolver. Na pista de dança, executivos, artistas, estudantes e viajantes de Tóquio a Toronto compartilham o mesmo espaço, unidos pela linguagem universal da música.
Shows e Turnê Internacional no Japão: Theo Bial vem se apresentando em casas de prestígio no Brasil, como o Blue Note Rio e Blue Note São Paulo, com o show de lançamento de Theo Canta Chico. Seu talento e sua conexão com a bossa nova abriram as portas para o mercado internacional. Em julho de 2025, Theo embarcou em sua primeira turnê internacional no Japão, um país com grande apreço pela música brasileira.
Um Patrimônio Vivo
Se Woody Allen nos convida a assistir ao sonho de uma Era de Ouro, o Rio Scenarium nos convida a habitá-la. Em um mundo cada vez mais digital e efêmero, a casa resiste como um templo da memória física e cultural.
Para os leitores da ArtNow Report que buscam entender o Brasil além dos clichês de "sol e mar", uma visita à Rua do Lavradio é mandatória. Não é apenas sobre sair à noite; é sobre testemunhar a celebração da alegria brasileira em sua forma mais autêntica e sofisticada, numa obra-prima de um diretor que entendeu que a melhor maneira de viajar no tempo não é através da ficção, mas através da preservação apaixonada da história.
Instagram: @rioscenarium
www.rioscenarium.com.br


O Curador do Tempo
Plínio Fróes
1 - AR.: A Rua do Lavradio já foi palco da elite intelectual e artística do Rio antigo. O que dessa atmosfera histórica o inspirou na criação do Rio Scenarium?
PF.: A Rua do Lavradio foi aberta em 1771 pelo 3° Vice Rei do Brasil, o Marques do Lavradio, ligando a Lapa à Praça Tiradentes. No início do século XIX, ela era uma rua residencial com inúmeras chácaras e solares, moradia de nobres como o Visconde do Ouro Preto, Conde da Gávea, Visconde do Jaguari, Visconde de Itaboraí, Marques do Cantagalo e tantos outros. Uma curiosidade: até hoje a conta de água do Bar Nova Esperança, na esquina de Rua do Lavradio com Rua do Senado, vem em nome da Baronesa do Flamengo.
Depois ela se transformou num centro de vida boêmia com inúmeros cafés, bares, casas de espetáculo e teatros como o Teatro Politeama, o Hi Life, o Teatro da Exposição, o Teatro Circo, o Éden Lavradio e o Teatro Apollo, onde se apresentou a grande atriz francesa Sarah Bernhardt.
Nos anos 90, eu me mudei para um velho sobrado na Rua do Lavradio número 10 e trabalhava como antiquário, no número 28, cercado por velhos e belos casarões do século XIX e início do século XX. Eu vivia imerso 24 horas neste cenário, neste fantástico universo repleto de memórias e de história. O Rio Scenarium veio da mistura de tudo isso que estava latente, junto com a vontade de empreender e de transformar em realidade os sonhos de trazer de volta um pouco deste passado de glória para esta rua, que apesar de degradada, ainda conservava a magia do passado. E foi assim, com muita disposição que me juntei ao sócio Nelson Torzecki, Evandro Manoel e à decoradora Elma Cola e criamos o Rio Scenarium, uma síntese deste tempo que passou, com magia, beleza, música e alegria.
2 - AR.: Como foi o processo de transformar um casarão antigo e quase esquecido em um espaço que hoje é referência mundial em cultura e entretenimento?
PF.: Reunindo e abrindo à visitação pública em quatro casarões do século XIX, um acervo de mais de 10 mil peças entre móveis e objetos antigos, o Rio Scenarium é um centro de memória que permite aos visitantes, um mergulho no passado além da vivência cultural e do entretenimento ouvindo e dançando a boa música brasileira, degustando uma excelente gastronomia neste ambiente mágico e único que remete a épocas passadas.
3 - AR.: O Rio Scenarium ficou conhecido por unir música, gastronomia e cenografia em uma mesma experiência. Como você enxerga essa integração de linguagens artísticas no cenário contemporâneo?
PF.: Esta experiência no Rio Scenarium é única, é uma imersão extraordinária onde tudo se mistura onde a principal regra é: deixe seu olhar percorrer livremente cada canto, cada objeto, cada olhar, deixe seu corpo se jogar na pista ou no abraço, embalado por um bom samba, bossa nova ou uma gafieira e poder degustar deliciosamente todos os sabores e aromas que emanam de seus drinks ou do seu cardápio brasileiríssimo. Todos os sentidos se entrelaçam sem regras rígidas onde o fio condutor é a alegria e a liberdade de ser e de se soltar neste cenário de raras experiências onde todos os sentidos estão liberados.
4 - AR.: Muitos dizem que o Lavradio é um “teatro a céu aberto”. Como o Rio Scenarium dialoga com essa alma cênica e com o cotidiano da rua?
PF.: O Rio Scenarium vem complementar todo este contexto histórico de uma rua que não aceitou a condição de degradada e se renovou e se revitalizou. O Rio Scenarium também trouxe junto com o resgate, com a restauração de milhares de peças antigas recuperadas, restauradas e expostas no chão, nas paredes, no teto, uma proposta criativa e única de espaço dedicado à cultura através da inovação, do contemporâneo, dialogando com a velha nova Rua do Lavradio na qual está inserida.
5 - AR.: Quando você começou a reunir objetos, móveis e antiguidades imaginava que essa coleção se tornaria parte da identidade estética do Rio Scenarium?
PF.: Inicialmente não, pois adquiríamos as peças, as restaurávamos e depois as revendíamos, no nosso antiquário, o Antique Center, na rua do Lavradio, número 28. Mas quando inauguramos o Rio Scenarium em 1999, no casarão ao lado, no número 20, como um antiquário especializado apenas em locação para cenários de cinema, teatro e tv e passamos a não mais vender nenhum móvel ou objeto antigo, o nosso acervo foi crescendo exponencialmente. Foi aí que percebemos que o acervo que havíamos construído era único e de grande importância histórica e cultural e que deveria ficar como legado para as futuras gerações.
E a forma que encontramos para manter este acervo foi criando uma nova atividade no local de modo a subsidiar os custos de manutenção do imóvel.
6 - AR.: O Rio de Janeiro passou por grandes transformações culturais e urbanas nas últimas décadas. Quais foram os maiores desafios e aprendizados de manter um empreendimento cultural vivo nesse contexto?
PF.: Sou testemunha de que o Rio de Janeiro passou por inúmeras transformações culturais ao longo das últimas três décadas. A criação dos Centros Culturais como o do CCBB, do Paço Imperial e dos Correios, na década de 90, foi sinalizando a vocação cultural cada vez maior do nosso Centro Histórico. Vou me concentrar mais neste nosso pedaço no Centro Histórico e nas nossas maiores conquistas coletivas. Foi também na década de 90 que nós criamos através de um trabalho associativo, a Feira Rio Antigo de Antiguidades, Arte e Cultura, hoje conhecida como Feira do Lavradio e que acaba de completar 30 anos com cerca de 400 expositores todos os sábados e de mil shows produzidos pela nossa associação Polo Novo Rio Antigo, no palco na esquina de Rua do Lavradio com Rua do Senado. Já se apresentaram lá, Emilinha Borba, Marlene, Dóris Monteiro, Adelaide Chiozzo, Éllem de Lima, Ademilde Fonseca, Violeta Cavalcante, Carmélia Alves, o querido João Roberto Kelly inúmeras vezes e dezenas de grupos de Samba, Choro, Bossa Nova, Gafieira, grupos circenses e de Corais, em épocas natalinas.
Organizar e manter a Feira e produzir estes shows, sempre foi um grande desafio para todos nós. Mas a Feira do Lavradio contribuiu sobremaneira para a revitalização de toda a região, principalmente da Rua do Lavradio, da Lapa, da Praça Tiradentes que apesar de seus dois grandes teatros, passava também por um processo de degradação urbana devido ao descaso do poder público. A Feira do Lavradio contribuiu também para revitalizar toda a região do entorno com o surgimento de inúmeros bares, restaurantes, casas de shows e espaços culturais. Em 2014, inauguramos a Galeria Scenarium onde ocorreram inúmeras e importantes exposições de Arte. Mas em 2019, com o surgimento da pandemia, que julgo ser o maior desafio que enfrentamos a galeria Scenarium foi fechada e só reaberta recentemente com as exposições “É você que me vê”, do artista Charles Barreto e “Azul Cobalto Azulejos e Memórias”, com 1600 azulejos antigos e uma coletiva “Pinceladas Afetivas”, com trabalhos de Gian e Pompéia Scapolatempore, Andréia Vasconcelos, Edna Schonblum e Brígida De Murtas, com média de público de 450 visitantes todos os sábados.


Em maio de 2022, o Grupo Scenarium inaugura o Dolores Club, uma casa de Jazz, Bossa Nova e MPB, sob o comando do Produtor Cultural Charles Barreto. Com pouco mais de três anos, o Dolores Club já é uma das mais importantes casas do cenário musical do Rio de Janeiro. Junto com as outras casas, os restaurantes Santo Scenarium e Mangue Seco e o Rio Scenarium, estas cinco casas, todas situadas no Quarteirão Cultural da Rua do Lavradio formam um dos mais importantes circuitos culturais da cidade do Rio de Janeiro.
7- AR.: Além de empresário, você é um curador de experiências. O que mais te move hoje: preservar a memória da cidade ou reinventá-la?
PF.: Ambas são cativantes e caminham juntas. É impossível a gente criar sem trazer as experiencias acumuladas do passado. A memória deveria ser preservada por todos, como o nosso bem mais precioso.
8 - AR.: O Rio Scenarium é também um símbolo de resistência da boemia e da cultura carioca. Como você vê o papel dos espaços culturais na formação da nova geração?
PF.: Sim, uma resistência. Enfrentamos as diversas crises financeiras do País e do Estado do Rio sem reduzir nossa operação e a oferta de shows. Continuamos lançando e de alguma maneira impulsionando a carreira de artistas que também são resistências. Não é fácil ser artista no Brasil.
Destaco aqui, quando se fala em nova geração, o papel reconhecido pelos artistas e pelo Público do Dolores Club. Abrimos a casa quando muitas estavam fechando por causa da crise causada no país e no mundo pela pandemia. Temos hoje um público renovado que ao fim do show do Dolores tem acesso ao Rio Scenarium e a noite continua. O Dolores é uma das poucas casas que abrem espaço para shows puramente autorais de novos artistas, essa é uma atitude economicamente arriscada, mas que fazemos porque sabemos que a renovação precisa acontecer. Nós abrimos os palcos, mas ele pertence ao publico e aos artistas.
9 - AR.: O piano de cauda do Dolores Club tem uma história especial com Elis Regina e foi o mesmo instrumento utilizado nos saraus da mansão da Urca de Abrahm Jabour. Como esse passado se conecta à proposta atual do clube e ao seu olhar sobre a preservação da memória musical brasileira?
PF.: O piano francês de verniz negro, de cauda, Pleyel, pertenceu ao libanês-brasileiro Abrahm Jabour, que nasceu em Trípoli, no Líbano, em 1884 e fundou a maior indústria exportadora de café do mundo, a Jabour Exportadora, tendo seu auge nos anos 30 e 40, sendo sócio do Banco do Brasil e do Banco Boa Vista. Em seu casarão na Rua São Sebastião, na Urca (hoje adquirido e ocupado pelos estúdios de gravação de Roberto Carlos), eram promovidas memoráveis festas e saraus musicais, onde o clímax era sempre em volta deste piano. Um dos momentos mais inesquecíveis, segundo relato de um dos seus netos, foi o show em que Elis Regina cantava em torno do piano, o gênero musical recém-lançado, a Bossa Nova, enquanto César Camargo Mariano dedilhava o seu teclado de marfim.
O piano compõe hoje o acervo do Dolores Club, que funciona no salão onde no passado funcionava a Gafieira Humaitá.
Este piano, que testemunhou o talento de tantos artistas no passado, também testemunhou no Dolores Club, apresentações de João Donato, Roberto Menescal e Doris Monteiro, que certamente já estrelaram nos grandes saraus na mansão da Urca. O Dolores Club continua a fazer história, através destas apresentações e de outras como as de Ney Mato Grosso, Leila Pinheiro, e tantos outros talentos das velhas e novas gerações, fazendo esta ponte do passado com o futuro na preservação da memória musical brasileira, tendo o antigo Pleyel novamente, como testemunha.


