O Rei do Rock and Roll

Aroldo Junior

Diante da tela de Aroldo Junior, o silêncio é apenas uma pausa antes do refrão. Para a edição especial "Música que se Vê", o artista entrega não um retrato, mas uma confissão monocromática: um Elvis Presley despido dos excessos dourados de Las Vegas, esculpido na essência da luz e da sombra. Ali, onde a cor se cala, a imagem canta.
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O traço de Aroldo opera numa frequência tátil. Ao fixar o "Rei do Rock" na tela, o artista opta por ignorar o óbvio. Para ele, não é a voz inconfundível que comanda a composição, mas o olhar.
"A voz embalou gerações, mas é nos olhos que encontro a humanidade por trás do mito", revela.
O que vemos, portanto, é a arquitetura de uma alma capturada no momento de quietude, onde a intensidade romântica e a força delicada de Elvis emergem da escuridão para tocar a superfície da luz.
Contudo, a densidade desta obra reside na biografia afetiva que a sustenta. Ao pintar Elvis, Aroldo não dialoga apenas com a história da música, mas com a intimidade de sua própria formação. A tela ergue-se como um tributo à mãe do artista, cuja admiração reverente e profunda pelo cantor preenchia a casa com um encanto genuíno.
Há, em cada pincelada, "um eco das canções que vinham do rádio". Pintar torna-se, então, um ato de retribuição, materializando uma memória auditiva em uma presença visual. A tela funciona como um relicário de sons guardados, onde a saudade e a admiração se encontram.
Existe uma musicalidade intrínseca na forma como ele manipula os tons. O escuro dita o ritmo, a luz marca a batida, e seu pincel segue o compasso de algo tão vital quanto a respiração.
"Às vezes suave como um verso, às vezes intenso como um refrão", explica o artista sobre a cadência de seu gesto.
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Diferente da visceralidade explosiva de Ney Matogrosso — outro ícone que já habitou suas telas —, Elvis exigiu de Aroldo a tradução de um "silêncio intenso", uma calma magnética que é, paradoxalmente, seu traço mais desafiador.
Aroldo define a si mesmo como "o intérprete", aquele que se coloca entre o ídolo e a tela para traduzir o que sente. A pintura resultante é descrita por ele não como um hino ou um lamento, mas como uma confissão. Nela, o artista e o ídolo se fundem; o Elvis que vemos carrega o DNA do olhar de Aroldo e as memórias herdadas de sua mãe.
O resultado é uma obra que pede para ser sentida antes de ser admirada. O artista deseja que o primeiro impacto seja o vínculo emocional — a saudade, o carinho, a lembrança — e que a força da figura venha a reboque desse afeto. Na alquimia de Aroldo Junior, a música deixa de ser som para virar atmosfera. Seu Elvis não precisa cantar para ser ouvido. Basta que o observador sustente o olhar para perceber que, dentro daquele preto e branco rebelde e nostálgico, o amor está na luz — e a música nunca parou de tocar.
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