Alexandre Lima Paixão
O Divã Acústico
A arte de Alexandre Lima Paixão é um território de intersecção. Não se trata de um artista que ocasionalmente reflete sobre a vida; trata-se de um psicanalista, sanitarista e filósofo que usa a tela como um divã. Sua formação multifacetada — da Filosofia pela Unicamp à Psicanálise Clínica e ao bacharelado em Saúde Pública pela USP — não é um currículo extenso, mas sim a metodologia que sustenta sua criação. Para Alexandre, o fazer artístico é um caminho para o acesso ao inconsciente, um processo íntimo e inédito que encontra em Salvador Dalí seu mestre inspirador.



A obra de Alexandre é o ponto de fuga onde a clínica encontra o surrealismo. Herdeiro de uma linhagem que vai de Freud a Dalí, passando pela angústia labiríntica de Kafka, o artista compreende que o inconsciente não tem forma, mas tem ritmo. E é esse ritmo — ora compassado, ora frenético — que ele materializa com o grafite e a tinta.
Ao sentar Nietzsche ao piano, Alexandre realiza um ato de justiça poética. Ele nos lembra que o filósofo do "eterno retorno" era também um compositor, o homem que declarou que "sem a música, a vida seria um erro". Na obra, o piano deixa de ser mobiliário para se tornar uma extensão do pensamento. As teclas, sob os dedos do pensador, parecem martelar acordes que não buscam a harmonia, mas a verdade. Há uma gravidade no traço, um claro-escuro que sugere que a música tocada ali não é para os ouvidos, mas para o espírito. Alexandre desenha o som do pensamento dionisíaco: pesado, profundo e inevitável.
Se Nietzsche é a teoria do êxtase, Janis Joplin é a sua encarnação. No contraponto visual criado pelo artista, a "Rainha do Rock and Roll" surge não como ícone pop, mas como uma entidade de pura emoção crua. Alexandre captura o exato momento em que a voz rasga a garganta para se tornar blues. O traço aqui ganha outra volatilidade; é mais solto, mais líquido, talvez influenciado pela imprevisibilidade da aquarela ou pela precisão nervosa do nanquim. Ele pinta o grito. Ao contemplar a obra, é quase possível sentir a textura arenosa de sua voz e a vibração psicodélica que ela emanava. Janis, sob o olhar do psicanalista, é a exposição máxima da vulnerabilidade humana convertida em potência.


