Retrospectiva em Fragmentos
Justina D'Agostino
“O homem não seria homem se não aplicasse seu domínio de movimento a ulteriores propósitos.” - Ernst Gombrich 1
Retrospectiva em Fragmentos: origens e propósitos
Retrospectiva em fragmentos é o resultado de uma paixão antiga por texturas, captação e associação de imagens, e o questionamento que sempre me deparo quando diante de uma tela em branco. O processo para uma ideia aflorar não se explica: apenas se percebe que caminhos e caminhos foram percorridos, explorados e posso imaginar que, em algumas notas de ateliê, aconteceu o momento em que realmente consegui visualizar que a técnica da colagem era o meio para revitalizar a pintura de cavalete, e colocá-la sob uma nova perspectiva. Estava observando ao meu redor um mundo de releituras, de colagens, de superposições, instalações, mas sempre em volta de imagens daquilo que fugia de um reflexo que nos faz voltar para a ideia do retrato de nós mesmos.
Resgatar essa ideia, a do autorretrato, a do clicar-se e deixar-se clicar, para voltar a questionar um processo (colagem) que pode, devido a determinadas propriedades que qualquer observador pode atribuir ou identificar, sofrer um salto qualitativo em relação às possibilidades criativas que estão contidas no próprio processo, que nesse caso, é autorreferente. O objetivo desse processo artístico é ser contemporâneo sem, contudo deixar de ser moderno, não se deixando levar tanto mais por modernismos e perder o “bonde” da contemporaneidade.
1 - GOMBRICH, E. H. El sentido del orden: estudio sobre la psicología de las artes decorativas. Barcelona: Gustavo Gili, 1980.

Justina D’Agostino

Os trovadores na série Retrospectiva em Fragmentos
Retrospectiva em fragmentos: o desenho, a colagem, o objeto - O Desenho
“O desenho é o que permite ao artista penetrar na intimidade do real, tocar-lhe o cerne, estudá-lo, reestruturá-lo, transformá-lo. E além disso, saber desenhar é um modo de possuir a realidade, de poder inclusive, inventar-lhe sucedâneos. O desenho estabelece a ligação entre o mundo objetivo e a imaginação entre a realidade e o sonho. Entre o universo individual e o universo social.” Ferreira Goulart 2
2 - GULLAR, Ferreira. Sobre arte. 2. ed. Rio de Janeiro: Avenir, 1984.


Retrospectiva em fragmentos: o desenho, a colagem, o objeto - A Colagem
"A colagem freqüentemente usa o contraste mais forte possível entre os elementos pictóricos, o que reforça a ideia de uma fala ríspida e franca por oposição a um discurso uniforme e ponderado. Por outro lado, em lugar do minucioso estilhaçamento da realidade os fragmentos são maiores e mais óbvios, achatados, frontais, atrevidos, explícitos. Em todos os sentidos, a linguagem é mais franca.” David Sylvester - 3
“[...] a reunião de coisas que não estariam reunidas se você não as reunisse.” John Cage - 4
3 - SYLVESTER, David. Sobre a arte moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 469.
4 - CAGE, John. Apud SYLVESTER, David. Sobre a arte moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 430.


“...à parte o ritmo, a diferença das texturas é uma das coisas que nos impressionam mais na natureza: a transparência do espaço oposta à opacidade do objeto nesse mesmo espaço, os tons surdos de uma maço de tabaco ao lado de um vaso de porcelana e, além disso, a relação da forma, da cor e do volume com a textura. Para que evocar estas diferenças com monótonas pinceladas a óleo e procurar “dar” o visual mediante convenções torturantes e retóricas: perspectivas, etc?O fim que tínhamos em vista ao usar a colagem era mostrar que materiais diferentes poderiam conjugar-se para se tornarem no quadro uma realidade em competição com a natureza. Tentamos desembaraçar-nos da ilusão óptica para encontrar a “ilusão do espírito”. Um bocado de papel nunca era utilizado para representar um jornal; servíamo-nos dele para definir uma garrafa, um violino, ou um rosto. Não se empregava nenhum elemento no seu sentido literal, mas sempre fora do seu contexto habitual, para produzir um choque entre a visão original e a sua nova definição final. Se um bocado de jornal se pode tornar uma garrafa, isso leva-nos a refletir tanto a respeito dos jornais como das garrafas. Esse objeto deslocado entrou num universo para o qual não fora feito e em relação ao qual se mantém estranho.
Sobre tal estranheza é que nós queríamos que as pessoas pensassem, porque tínhamos a consciência de que vivíamos em exílio num mundo pouco tranqüilizador”. Pablo Picasso - 5
5 - PICASSO, Pablo. Apud GILOT, Françoise; LAKE, Carlton. Minha vida com Picasso. Editora Samambaia, s.d., p. 87-88.
Retrospectiva em fragmentos: o desenho, a colagem, o objeto - O Objeto
“O salto para o interior do objeto é um salto para dentro de si mesmo. A mente é uma câmara escura de fotografia.” Charles Tomlinson - 6
O objeto para a elaboração do trabalho que designaremos como uma série a qual chamamos “Retrospectiva em fragmentos” se deve ao fato do mesmo se limitar a fotos e fragmentos de fotos de trabalhos executados por mim num período de vinte anos. Os acréscimos que se fizeram necessários quanto a técnica foram papéis coloridos, tinta, e materiais pertinentes à pintura.
6 - TOMLINSON, Charles. Apud PAZ, Octavio. Obras completas, vol. II: Excursiones e incursiones. México: Fondo de Cultura Económica, 1994, p. 193.


Justina: O um e o múltiplo - 7
Dr. Henrique Schützer Del Nero - 8
Já faz quase 20 anos que conheço o trabalho artístico de Justina D’Agostino. Adjetivos não lhe faltam. Abonadores, quase todos, em minha opinião, uma vez que a arte, porque arte, não se deve sujeitar à tirania do crítico. Portanto, quem lhes fala, não é o crítico, mas alguém que acompanha o trabalho plural da artista, reconhecendo, ou desconfiando, pelo menos 5-6 fases nesse período, e mais, num leque não exibicionista, mas erudito, de domínio de um sem número de técnicas pictóricas.
Digo das técnicas, e as enfatizo, porque sempre defendi que os “modernistas” deveriam ter licenças de autor ao traço livre e mesmo à tela vazia, não lhes dando isso, no entanto, o direito de não dominar a técnica da pintura clássica, o mesmo valendo para a poesia e alguns outros domínios que, sob o rótulo de “moderno”, acobertam o desconhecimento das técnicas ortodoxas do fazer daquele ofício.
Justina, muito ao contrário, domina o desenho, o carvão, o retrato, o figurativo. Tenho algumas de suas obras, namoro outras, e talvez, por viés ou por ignorância, não há quem não conheça minha coleção particular, que eu não a aponte como a artista maior. Pudera-se argumentar que minha coleção não é invulgar, mas também há outros. Alguns até de renome, com quem Justina ombreira facilmente e, sobretudo, visitado o conjunto da obra, mostra seu repertório quase inesgotável de criação, invenção, pesquisa e técnica.
7 - Fragmento da apresentação do livro Retrospectiva em fragmentos (edição de autor, 2008).
8 - Dr. Henrique Schützer Del Nero (1959-2008) foi médico psiquiatra, filósofo e pesquisador em ciência cognitiva, doutor pela Escola Politécnica da USP e fundador do Grupo de Ciência Cognitiva do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Testemunho de processo - 9
Dr. Thales Trigo - 10
Meu trabalho com a reprodução das obras da Justina começou em 1989. Nesse ano, reproduzi algumas dezenas de obras de pinturas a óleo. A partir de 2003, colagens com técnica mista. Logo que recebi o material e passei a analisá-lo de forma mais atenta e cuidadosa, percebi o grande potencial criativo e técnico da pintora. As obras, já nesse período, eram maduras e coerentes, resultado de trabalho árduo, persistente, bem orientado e feito com envolvimento e sem modismos ou pequenos truques. As reproduções eram feitas com cromos e negativos coloridos em 6x6 cm. Nosso cuidado com a reprodução das cores foi uma constante.
A partir das dezenas de imagens que produzimos ao longo dos anos, uma nova vertente de trabalho surgiu, o uso dessas imagens e seus fragmentos na produção de uma segunda geração de obras. Quando tive a oportunidade de ver o que estava acontecendo com o material, Justina já havia produzido pelo menos uma centena de novas imagens, a geração das colagens com interferência de diversas técnicas. Estivemos juntos olhando, analisando e discutindo as imagens muitas vezes e passamos a reproduzi-las novamente, mas agora em um novo mundo – reproduções digitais em alta resolução.
Foram centenas de reproduções, originais de diversos tamanhos e muitas vezes com temas recorrentes. Minha memória era continuamente estimulada, já conheço essa imagem, me lembro dos cromos , me lembro dessas figuras e todas estranhamente novas e facetadas.
O uso da nova tecnologia, a produção de imagens digitais abriu novas oportunidades. Programas de tratamento e manipulação de imagens poderiam produzir uma nova geração de trabalhos, a interferência digital sobre as colagens. Experimentos, novos experimentos, alguns acertos mas também o risco da novidade.
9 - Texto originalmente publicado como prefácio do livro Retrospectiva em fragmentos (edição de autor, 2008).
10 - r. Thales Trigo é fotógrafo profissional desde 1983, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e fundador da Fullframe Escola de Fotografia em São Paulo.


Fotografias: Thales Trigo
Não estaríamos sendo “vítimas” do computador. Vítimas das facilidades da computação, vítimas do aparente ineditismo das nossas ideias. Felizmente o tempo é um aliado, com seu passar vamos nos tornando mais cautelosos, menos afoitos, mais prudentes.
Nossa quarta geração de imagens é aquela em que acreditamos. Imagens mistas, resultado da colagem de fotografias digitais impressas em diversas mídias aplicadas sobre suportes rígidos. Interferências simples e monocromáticas, imagens grandes e prazerosas de se ver.
Esse é o nosso projeto atual. O uso de imagens fotográficas de obras de um passado não tão distante, mas de diferentes inspirações, diferentes momentos.
RF: A essência
A execução da história relâmpago que percorre a mente e que a mão, automaticamente, executa. A música que toca e percorre a superfície em variações de cor, forma e textura, na linguagem única da colagem. A forma que se transforma e se revela em outra forma. O espaço dentro de espaços que se envolvem mutuamente para representar momentos únicos de sentimentos instantâneos que vem e vão, e formam pequenas histórias na mente. Culminam em pequenos pontos, explodem em sombras e luzes, penumbras, linhas explícitas, camufladas, massas em fermentação, massas que se esmaecem.
Movimentos, tensões, paz, angústia, reflexões, o que de mistério, de complexidade. Buscas, encontros, e momentos de ceder aos próprios limites para não perder a magia, o gosto da liberdade.
Justina D'Agostino
Graduada em arquitetura pela FAAUSP em 1977, Justina iniciou sua incursão no mundo da arte em 1983, onde desde então vem construindo uma trajetória repleta de realizações e reconhecimento.
Seu interesse pelas artes plásticas transcende o mero domínio técnico, impulsionado por uma profunda convicção na capacidade da arte de conectar pessoas através de seus desenhos. Para Justina, suas obras são convites para explorar um mundo de narrativas e conexões, onde as linhas traçadas se convertem em pontes entre diferentes perspectivas e experiências.
O estilo artístico de Justina é intrinsecamente ligado à sua visão de mundo, refletindo uma fusão de observação meticulosa e interpretação criativa. Seu processo de pintura é uma espécie de diálogo constante com o entorno, onde pinceladas são reflexões de sua percepção sensível dos elementos que a cercam. Como uma escritora de histórias visuais, ela transforma suas experiências cotidianas em composições vívidas, destacando nuances e detalhes que capturam a essência do momento.
Suas obras, marcadas pela beleza e pela profundidade emocional, são testemunhos da sua busca incessante pela expressão autêntica e pela conexão humana.

Fotografia: Jane Cartier

