A Luz como Matéria
Rose Aguiar
Há mais de quarenta anos Rose Aguiar fotografa aquilo que quase ninguém se detém a olhar. Nascida em Tianguá, no Ceará, e radicada há décadas na serra fluminense de Nova Friburgo, a artista construiu uma trajetória que passa pelo desenho, pela xilogravura e pela aquarela até desaguar — a palavra é exata — na fotografia. Mas é preciso dizer de que fotografia se trata: não a do registro, não a do documento. A de Rose se aproxima da pintura e do desenho pela porta dos fundos do acaso, observando a água em movimento até que a superfície, tocada pela luz, devolva formas que se desfazem no instante seguinte.
São dela as palavras mais precisas sobre o próprio trabalho — as imagens, diz, pintam-se a si mesmas. A frase não é modéstia, é método. Diante de um espaço aquático, a artista espera o tempo certo, a luz certa, o movimento certo, e fixa com o clique aquilo que jamais se repetirá. O resultado, ao longo de séries como Water Grafitte, Hot Water, Blue and Gold ou Pompidou, é um vocabulário de linhas, manchas e texturas que oscila entre o reconhecível e o abstrato. A arquitetura de Paris se dissolve na poça; a água quente vira nebulosa; o reflexo desenha sobre si mesmo um grafismo que nenhuma mão traçaria. Rose chama isso de estranhamento: o cotidiano observado até deixar de ser óbvio.
Essa pesquisa ganhou, nos últimos anos, um adensamento técnico e histórico. Desde 2022, a artista integra o grupo LUMEN, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dedicado aos processos fotográficos históricos e alternativos. Não é detalhe: trata-se de alguém que, em vez de acelerar rumo à imagem instantânea, escolhe desacelerar, voltar às origens luminosas do meio.
Mais recentemente, o campo dessa observação se alargou. Da água, Rose passou a olhar a natureza e o território — e, com eles, uma questão que sua própria origem cearense ajuda a explicar: a das etnias, da terra e da origem. É desse mesmo gesto — olhar a luz atravessar a matéria — que nasce seu projeto mais recente, O Tempo, o Cristal e a Fotografia. Se a água foi a matéria do fugidio, o cristal é a da permanência; e, no entanto, também a do frágil, o que exige cuidado, como as relações de família que, bem guardadas, atravessam o tempo quase intactas. O ponto de partida é íntimo: o álbum da mãe, matriarca que colecionava a história da família em imagens, em que cada cena eternizada tem, como cada peça de cristal, a sua própria história.
O que une água, terra e cristal em Rose Aguiar é sempre a luz atravessando o tempo. A água fixa o instante que não volta; o cristal guarda a memória como o álbum da mãe a guardava. Entre o que escapa e o que permanece, a fotografia faz a mediação — e talvez seja essa a definição mais justa de uma obra que, há quatro décadas, traduz em imagem aquilo que pertence ao olhar.
Rose Aguiar, Graduada em Artes pelas Faculdades Integradas Bennett (1976), é pós-graduada em Planejamento Educacional (UNIVERSO, 1992), Educação Estética (UNIRIO, 2006) e Arte Educação e Tecnologias Contemporâneas (UnB, 2007). Investiga desenho, xilogravura, aquarela e fotografia há mais de quarenta anos; sua pesquisa atual envolve luz, água e movimento, com abertura recente às questões da natureza, das etnias, da terra e da origem. Publicou os livros de fotografia Água Viva e Alquimia da Imagem.
Desde 2022 integra o grupo LUMEN, da UFRGS, dedicado a processos fotográficos históricos e alternativos, e teve seu portfólio selecionado para a Leitura de Portfólio do FestFoto POA em 2021, 2022 e 2023. Atualmente participa de cursos de arte contemporânea e tutoria artística na Galeria Eixo (Niterói, RJ), onde também integrou os Processos Artísticos-1; fez parte da Casa Tato4 (São Paulo). Realizou exposições individuais e coletivas no Brasil (Fortaleza, Goiás, São Paulo, Porto de Galinhas, Rio de Janeiro e Nova Friburgo) e no exterior (Nova York, Lisboa, Paris, Madri, Osaka e, na Itália, Roma, Palermo e Milão).
Instagram: @roseaguiarfotoarte
