Sem Corte

Joanna Solamon

Há uma qualidade de silêncio que não é ausência — é vigília. E é exatamente esse silêncio que habita o trabalho de Joanna Solamon: uma atenção tão concentrada sobre o ordinário que o ordinário, sob seu olhar, deixa de ser ordinário.

Nascida e radicada em Corupá, no interior de Santa Catarina, Joanna chegou à fotografia pelo caminho de quem sempre soube ver — antes de saber que isso era uma linguagem. Começou pensando em fotografar cenas para depois pintar com giz pastel. Ficou com a fotografia quando entendeu que ela já era a pintura. Em 2020, no silêncio forçado da pandemia, a obra estava pronta. O mundo havia parado — e ela já sabia olhar para o que o movimento costuma esconder.

artnow-report-joanna-solamon-artista-brasileira-arte-contemporanea
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O que Joanna habita não são paisagens. São estados. O pertencimento de um corpo num espaço que o reconhece. A delicadeza de um gesto que ninguém registrou porque parecia pequeno demais para importar. O tempo que não avança em linha reta mas se deposita — nas superfícies, nas texturas, nos rostos de quem vive longe do ruído. Cada imagem é um convite à desaceleração, não como recurso estético mas como posição ética: o mundo visível merece mais atenção do que recebe.

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Há nos seus enquadramentos uma consciência do fora de campo que poucos fotógrafos cultivam com essa clareza. O que está presente na imagem é sempre também o que foi escolhido excluir — e essa tensão entre o que se vê e o que se intui é onde a poesia da sua obra vive. Não há espetáculo. Há duração. Há a sensação persistente de que a cena existia antes da câmera chegar, e continuará existindo depois que ela partir.

A série e fotolivro Singeleza — palavra que carrega em si a recusa do excesso — é talvez o gesto mais honesto da sua pesquisa: a nomeação de uma estética que não se impõe, que não compete, que simplesmente permanece. O interior catarinense não é aqui cenário nem tema: é território de memória, lugar onde a identidade se forma devagar, onde o pertencimento tem cheiro e textura e hora do dia.

Joanna Solamon fotografa o que o mundo aprendeu a não ver. E quando coloca essa imagem diante de nós, algo se move — não de espanto, mas de reconhecimento. Como se a cena sempre tivesse estado lá, esperando alguém que soubesse parar.

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