Cena Guardada

Eloíne Erthal

Eloíne Erthal trabalha com o que o tempo deixa.

Não a passagem abstrata do tempo, mas a sua matéria concreta: a memória de um rosto, o peso de um momento que alguém quis guardar. Nascida em Matelândia, no Paraná, e formada em Direito antes de encontrar na arte têxtil o seu verdadeiro idioma, Eloíne chegou à feltragem pelo mesmo caminho que muitos chegam ao essencial — pela crise, pelo silêncio forçado, pela necessidade de fazer algo com as mãos quando as palavras não bastam. O que descobriu ali não foi um ofício. Foi uma linguagem.

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A feltragem plana com agulha — ou pintura com lã, como Eloíne prefere chamar — é uma técnica de acumulação. Cada fibra inserido na base é um gesto que não se apaga: está lá, comprimido, entrelaçado com o anterior e com o seguinte, construído em camadas que só o olhar muito próximo consegue distinguir. De longe, a imagem parece uma pintura. De perto, é outra coisa: é tempo solidificado, duração visível, presença física do trabalho.

O ponto de partida quase sempre é uma fotografia. Eloíne parte da imagem captada — um casamento, um animal de estimação, um rosto — e a converte em lã, num processo que é simultaneamente tradução e transformação. A fotografia congela o instante: a feltragem o aquece. O que era luz e sombra torna-se pelagem, tecido, corpo. Eloíne não reproduz memórias: dá-lhes peso.

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Por séculos, a arte têxtil foi confinada ao silêncio doméstico — praticada por mulheres, valorizada apenas enquanto funcional, apagada das histórias oficiais da arte. Eloíne conhece esse apagamento de dentro: cresceu entre costureiras, viu a avó na máquina, a irmã no ponto cruz, a mãe no tricô. O que essas mulheres faziam era arte — mas não era chamado assim. Ao eleger a feltragem e o bordado como meios principais, e ao ensinar mais de duas mil alunas, Eloíne não apenas pratica: reivindica. Cada ponto é também um argumento.

Numa das suas peças, uma figura feminina esboçada apenas em linha — contorno, sugestão, presença mínima — tem o rosto coberto por uma borboleta de lã trabalhada com precisão absoluta. O corpo é incompleto; a borboleta é inteira. Não é uma substituição nem uma ausência — é uma escolha sobre o que merece ser visto. Eloíne Erthal sabe que algumas presenças só se revelam quando o essencial está coberto. E que a lã, diferente da tinta, nunca seca de vez.

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