Um filme corre a 24 fotogramas por segundo. André Magarao trabalha com um só.
E esse único basta. O fotógrafo carioca radicado em Laguna Beach, Califórnia, não documenta atletas — constrói cenas. O que o seu trabalho tem de mais singular é precisamente isso: a consciência de que uma fotografia de esporte não precisa provar que o movimento existiu. Precisa fazer o espectador sentir o peso do instante em que ele estava prestes a acabar.
Nesse sentido, Andre opera mais como diretor de fotografia do que como repórter visual. Leva equipamentos de iluminação para ambientes onde nenhum set foi montado — mar aberto, rampas de terra batida, céu noturno — e constrói ali uma luz que não existe na natureza daquele lugar. Não para falsificá-lo: para revelar o que o olho comum, sem esse enquadramento deliberado, nunca veria. A luz artificial sobre o atleta em suspensão isola a figura do mundo ao redor com a precisão de um recorte dramático. É a lógica do set transportada para o imprevisto.
O cinema tem o freeze-frame — o fotograma congelado que interrompe o fluxo e obriga o olhar a parar. Andre faz o oposto: parte do congelamento e devolve ao instante toda a sua tensão cinética. A câmera não registra o movimento: registra o seu ponto cego — o instante em que o movimento já foi, mas as consequências ainda não chegaram. É o frame que nenhum diretor consegue pedir num set convencional, porque não se encena: espera-se.
Saber esperar foi o que o ciclismo ensinou a Andre antes da fotografia. A luz baixa da manhã cedo, a paisagem que muda conforme a hora em que se olha — essa educação do olhar, construída no corpo antes de ser construída na técnica, está em cada imagem que faz. Foi também o esporte que o levou à iluminação artificial: skatistas não acordam cedo, e foi dessa limitação prática que nasceu uma das marcas mais reconhecíveis da sua linguagem. Uma linguagem reconhecida com mais de 60 capas de revista e prêmios como o Sports Photographer of the Year no International Photography Awards 2021 e o 1º lugar no International Photography Awards 2025 na categoria Extreme Sports — imagens que persistem depois que a encomenda desaparece.
Numa das suas fotografias, um atleta está de cabeça para baixo no alto do quadro. Abaixo, o oceano. Ao redor, gotas — é possível que sejam água, possível que sejam estrelas, não dá para saber com certeza. Nenhum corte virá depois. Nenhum próximo plano explicará o que aconteceu. Essa incerteza não é uma lacuna — é onde a imagem vive. André Magarao entendeu que o fotograma mais poderoso não é aquele que mostra tudo: é aquele que o filme nunca chegou a ter.