O Roteiro Reescrito no Óleo

 Georgia Lobo

Há um silêncio muito particular que antecede a imagem, semelhante à escuridão espessa de uma sala de cinema instantes antes da projeção. Quando nos colocamos diante de uma tela de Georgia Lobo, o que nos confronta não é o contorno de uma figura, mas a irrupção de um corpo feito de luz e tempo. A tinta a óleo, nessa fricção entre a espátula e a tela, abdica de ser apenas pigmento para tornar-se território.

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Existe uma temporalidade cinematográfica na forma como essas figuras habitam a tela. Elas não posam; elas ocupam. Ao erigir corpos negros em atmosferas de privilégio, glamour e inegável realeza, a artista constrói uma encenação da dignidade. Não se trata de uma cena estática, mas de um frame pausado no ápice de uma ascensão. O olhar dos retratados atravessa o quadro com a segurança de quem não precisa pedir permissão para existir ali. É um corte seco na narrativa histórica da subserviência, uma montagem que substitui a humilhação pela soberania.

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Georgia carrega uma genealogia singular, densa, sem paralelo fácil. Neta de um homem negro nascido em 1875 — filho de pessoas escravizadas, que aprendeu a ler quando isso era quase impensável, que se formou médico, que constituiu uma família interracial em pleno interior do Brasil do início do século XX — Georgia herdou uma história que não cabe em narrativa linear. É uma história de contradições férteis: de ascensão e exclusão coexistindo no mesmo telhado, de corpos negros vivendo uma vida de classe média alta num país que ainda não sabia como olhar para eles. É dessa complexidade que nasce sua obra. Não como peso — como matéria-prima.

O que distingue Georgia Lobo no campo da pintura figurativa não é apenas o gesto de retratar corpos negros em posição de dignidade — outros o fazem —, mas a qualidade específica da presença que esses corpos exercem dentro do quadro. Não há esforço visível. Não há postura de quem precisa demonstrar pertencimento. Há soberania. Uma soberania tranquila, enraizada, que não dialoga com nenhum olhar que precise convencê-la de si mesma. Seus personagens habitam o centro da tela como quem sempre soube que era seu lugar — porque era.

O que Georgia Lobo faz — com precisão, com beleza, com uma clareza que só vem de quem elaborou muito antes de pintar — é oferecer ao inconsciente coletivo imagens que ele não tinha. Imagens onde a negritude é glamour, é sagrado, é cotidiano, é centro. Imagens que não pedem nada ao espectador além de contemplação. E é nessa generosidade aparente que reside o gesto mais radical da sua obra: ela não confronta — ela substitui. Não destrói o estereótipo pela negação. Oferece, em seu lugar, algo tão belo que o estereótipo simplesmente não encontra mais onde pousar.

A tela não guarda a origem. Guarda o que floresceu dela.

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